2008
A viagem de Ariel ou Um conto de Natal
Postado em Contos e Fábulas | Sem Comentários »Texto de Vera Guidi
Ilustração de Catarina Landim

Quem conhece o Ariel ?
Ariel - pra quem não sabe - é um menino super-legal, que tem a maior curiosidade sobre as coisas do mundo!
Seu coração é puro, cheio de amor. Amor de criança, que agradece todos os dias pela sua vida, pelas pessoas que ama, pelo seu corpinho de menino. De olhos bem espertos, que não param de espiar.
Mas o que Ariel mais gosta é de pensar!
Os adultos vivem dizendo: — Ôh, menino, você tá no mundo-da-lua ?
É que o Ariel, nessas horas, está pensando…pensando…Acreditam que ele pode viajar com o pensamento?
Certo dia, ele andava meio quieto, tristinho. Ninguém notou, já era no finzinho da tarde, quase noite. Os adultos estavam ocupados com seus afazeres, correndo pra lá e pra cá.
E o Ariel estava com a cabeça quente, sentado no jardim. Pensando, sismando, como costuma fazer.
No seu pensamento havia uma interrogação enorme. Numa concentração sem tamanho!Sua expressão estava séria, a testa enrugada. Como pode um menino pequeno estar tão sério?
Será que criança só brinca? Ou será que criança também percebe o que se passa ao seu redor?
E olhava para o céu, pensando, pensando.
O que será que ia na sua cabecinha, heim? Faz de conta que a gente pudesse ler os seus pensamentos, como num papel escrito…
Então daria pra saber que o Ariel estava assim porque andou ouvindo comentários e notícias da televisão…
Nossa! Só se fala em guerras, os povos estão brigando…
Os adultos nem percebem, acham que criança não entende. Ele anda escutando tudo, sim.
Sabem…
É final de ano, e o Ariel sempre gostou de comemorar o Natal!
Das histórias, das cores, da música, do rosto alegre das pessoas.
Mais importante que presentes são os abraços que se recebe neste dia… Ele acha que nesta época o coração das pessoas fica meio “amolecido” de Fraternidade.
Pena que não ficam assim no resto do ano… Que pena…
Em sua cabecinha de menino, ele acha que não vai ter esse clima de amor, neste ano…
Ele até anda brincando menos com seu cãozinho Tigre. Mas o Tigre, que é um amigo fiel, apesar de estranhar o seu silêncio, está respeitando o seu momento quieto.
Será que o Ariel entende mesmo o que acontece no mundo dos adultos?
Assim, quietinho, Ariel foi espiando a noite chegar e eis que viu uma luzinha perto de seu ombro.
Será que era um vaga-lume? Só que a luzinha foi aumentando de tamanho, meio azulada, brilhando forte. Nossa – pensou – que será essa luz ?
Piscou forte, uma, duas vezes, e se transformou numa silhueta feminina, toda clara.
Não deu medo, pois era uma figura muito bonita…
Exclamou: — Você é uma fada, como as das histórias!
A linda moça lhe disse: — Ariel, não sou uma fada, mas uma amiga sua e de seus pensamentos. É verdade que eles estão lhe deixando triste, ultimamente?
— É sim, disse o menino, você sabe o que se diz por aí? Que ninguém entende ninguém, neste mundo só de guerras…
— Eu sei, o desenrolar dos acontecimentos… É com o que se preocupa, não?
— Sim, acho que me enganei sobre as pessoas do mundo.
Sorrindo, a amiga perguntou:
— Gostaria de fazer uma breve viagem comigo? Preciso lhe mostrar algumas coisas deste mundo…
Me dê as suas mãozinhas, feche seus olhos e prometa que não terá nenhum tipo de medo. Ariel sentiu uma forte energia que envolvia seu pequeno corpinho, que decolava rapidamente para o alto, como num foguete de brinquedo do parque de diversões. Não abriu os olhos, até a amiga dizer que sim. Confiava que tudo ia acabar bem.
— Veja agora, Ariel, onde viemos parar.
Estavam agora em um belíssimo recanto, de relva verdinha, milhares de flores iluminadas pelo Sol, rodeados da mais encantadora Natureza. Pequenos animaizinhos corriam livremente, borboletas e passarinhos pousavam em suas mãos, ombros, cabeças, saudando sua chegada.
— Que lugar lindo!
— É um de meus preferidos. Sentemos debaixo daquela árvore. Tenho um livro para lhe mostrar. Vai gostar…
Acomodados, a amiga pegou um grande volume, de rica encadernação e disse:
— Ariel, este é um livro diferente, como verá. Na medida que o folhearmos não só verá as gravuras, mas sentirá as sensações nelas contidas. E sabe de uma coisa…é apenas um volume de uma coleção infinita…
— Como se chama? perguntou apressado e curioso.— É o LIVRO DAS BOAS AÇÕES.
E começaram a vê-lo, vagarosamente. A bela amiga lia em voz suave, cada capítulo era uma história. As página continham as mais belas imagens que Ariel jamais vira. E, como mágica, podia sentir as alegrias, as emoções contidas em cada gesto, ali representados com a maior precisão. Em seu rosto de menino brotavam lágrimas emocionadas, como dois riozinhos. Seu coraçãozinho, aquecido, iluminava-se. Uma aura intensa de amor envolvia-o da cabeça aos pés. Sorria o tempo todo, surpreso a cada instante.
— É incrível! – dizia.
E assim, passou-se o tempo. Um tempo que o relógio nem sentiu.
A bela “fada”, como Ariel disse, encerrou dizendo:
— Leve para sempre as lições destas lembranças reais. Irá buscá-las aos poucos, de dentro de si, em momentos de sua vida.
“A Terra, sim, meu filho, passa por dias difíceis, conseqüentes de atos difíceis de toda a História da Humanidade.”
“Mas a vida é muito mais…há milhares de tesouros escondidos, em todos os cantos do planeta. Tesouros que não são de moedas, mas de ações…”
“O BEM nem sempre aparece claramente aos nossos olhos. Veja como podemos atravessar a escuridão apenas com nossa pequena tocha de AMOR. Não desista de amar. Espalhe seu AMOR, sem receio.”
“Faça como os jardineiros. Plante sementes num pequeno jardim e siga adiante. Plante e confie. Pois os pássaros, o vento, os insetos, servidores do Equilíbrio, as espalharão em solos férteis.”
Ariel fechou os olhos e imaginou um lindo jardim. Pensou que nunca esqueceria tão valioso ensinamento.
Quando abriu-os novamente, o cãozinho Tigre estava a olhá-lo fixo, pronto para latir, com seu olhar meigo, abanando o rabinho, feliz pela sua felicidade. Será que ele também vira a sua amiga?
E por falar nisso, onde estaria ela, a sua “fada”?
Ariel ainda a pressentia por ali.
No peito, a certeza de um dia poderia viver novamente outra incrível aventura.
Sentia algo diferente, maior do que o seu corpinho de menino pudesse carregar. Sentia um AMOR imenso pelas pessoas. Vontade de abraçar a todos e ajudar o próximo. Essa vontade, sabia, iria durar até ele ficar bem velhinho…
Trazia consigo as imagens bem gravadas, mas não conseguia distinguí-las claramente… Apenas vinham à mente os sorrisos, a paz, a felicidade de servir, a sensação da gratidão, e muitos sentimentos mais…
“ Ah, são estes os meus tesouros ! ”
- Ei, amiga, esqueci de perguntar o seu nome. Antes de ir embora, me diga, por favor…
Bem de longe, ainda pôde ouvir a suavidade de sua voz a dizer:
— Meu nome é ESPERANÇA!

