Achei, arrumando minhas coisas, um desenho que o mestre Ruy Perotti fez para mim quando do término do curso que fiz com ele no Estúdio Magno Arte, em Piracicaba/SP, por volta de 1993.
Para quem não o conhece, Perotti foi quadrinhista e animador, diretor da Editora Abril na década de 1970 e proprietário da Linxfilm, estúdio de animação pioneiro no Brasil. Foi criador dos personagens Sugismundo, Satanésio, Gabola, Variguinho, entre outros.
No contato que tivemos, uma vez por semana, o sábado inteiro durante três meses, Perotti mostrou-se uma pessoa muito aberta e afável, transmitindo tudo o que pôde em seu excelente curso, que não se limitou às histórias em quadrinhos (como era a proposta), mas que abrangeu todo o mercado editorial, o qual ele ajudou a construir desde que ingressou na profissão na década de 1950.
Generoso e paciente, atendeu às perguntas dos “grudes”, eu e meu irmão, que ficamos como sarnas em cima dele, querendo arrancar tudo o que podíamos. Ele foi uma pessoa decisiva na minha decisão de ser um profissional, e até hoje me lembro do seu exemplo de garra e humildade, quando contou-nos um episódio que havia ocorrido no final da década de 1980.
Ele chegou na Editora Azul, que editava a revista Contigo, com um calhamaço de artes feitas a mão para serem fotografadas, como era a praxe do mercado na época. A secretária o olhou com desdém e disse: “cadê o disquete?” Lembro de Perotti dizer, meio contrafeito: “Senti que minha vida profissional desmoronava”. Embora soubesse que o computador estaria cada vez mais presente na profissão do artista, ele se dava conta, da pior forma, que precisava se atualizar, e rapidamente, aprendendo em pouquíssimo tempo a manejar programas gráficos e estações de trabalho, “jogando fora” uma série de procedimentos profissionais que havia adquirido em quase meio século.
Mas ele conseguiu. Aos 6o anos, aprendeu o que muito “jovem” de 50 hoje não quer nem saber, uma linguagem totalmente nova e estranha. Mas que teve que ser aprendida, para que ele sobrevivesse em meio à selva da profissão de artista no Brasil.
Quanto ao desenho, é mais uma prova da atenção e da generosidade dele: ele fez um desenho/caricatura de cada um dos alunos do curso (eram dez, se não me engano), de acordo com os cacoetes e piadas que cada um havia manifestado naqueles três meses, mas acompanhados do personagem Satanésio, uma das criações mais bacanas e populares. Eu tinha um personagem, o Português, que aproveitava o personagem das piadas populares, por isso o “inferno lusitano”.
Salve, seu Perotti, exemplo de vida e de profissional!

Obs: leiam mais sobre Perotti nos links:
Wikipedia
Matéria do Universo HQ por ocasião da morte de Perotti